Ranzinza.blogspot - 1001 motivos para odiar a humanidade
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[ 18.2.04 ]

Quem tem fome tem cão...


A calçada que margeia o alto e extenso muro que separa a Mackenzie da rua Maria Antônia é, há coisa de algumas semanas, o dormitório de um sem teto e sua numerosa família de cães. Pernoitam no local o mendigo, sua cadela, uma extensa prole de filhotes - que não tive paciência de contar - e suas tralhas. Não me incomodam. Passo por ali todo dia pela manhã e o cara está lá acordado, com sua cara de bebum, sem incomodar ninguém. Nem seus cães atrapalham os transeuntes.

Acontece que de uns dias pra cá, sempre que passo pela maltrapilha trupe, eles têm a companhia de uma senhora. É dessas dondocas de Higienópolis, empoadas, que fazem suas caminhadas pelas ruas do bairro com suas roupas de jogging lhe apertando as pelancas e a cara cheias de maquiagem às sete e meia da manhã. Ela está sempre ao lado do pobre homem, acompanhando a arrumação das suas coisas.

Fosse um cara forte e de terno, imaginaria que era um dos seguranças da faculdade, vigiando a retirada do incomodo visitante de perto da elitizada instituição acadêmica. Não era o caso, por isso imaginei que a dona estivesse todo dia ali para prestar uma ajuda ao mendigo. Já tinha visto a senhora com uns potes na mão, que deviam conter comida pro cara, imaginava eu.

Não concordo muito com esse tipo de assistencialismo e tinha certeza que para a dondoca, aquilo era mais uma demonstração de culpa pequeno-burguesa que altruísmo sincero. Mas quem sou eu pra julgar? Pelo menos, ela estava fazendo a parte dela, acabando com a breve fome de alguém que não tem recursos.

Até que hoje pela manhã, vendo os mesmos personagens no mesmo lugar, notei algo diferente. A moça estava abaixada e conversava com o sujeito, coisa que eu não havia visto ainda. Chegando mais perto, notei que o pote que ela às vezes levava estava aberto e que o tom do papo estava mais pra reprimenda que para consolo. Chegando mais perto percebi a cena como um todo: a dondoca alisava os filhotes da cachorra do mendigo, o pote continha uma ração animal e a conversa era uma bronca que a senhora dava no dono dos cães por não estar dando a devida atenção aos bichos. É isso mesmo: a coroa vai lá todo dia para cuidar dos cachorros e não para ajudar o indigente. E ainda dá esporro no cara porque ele não arranja comida para eles.

E o pior é que os cães tinham uma aparência muito mais saudável que o seu dono....
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